quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Amores e plantas


Sozinha, sentada na poltrona do ônibus, ela pensava na vida, olhando pra fora. Cabeça apoiada na janela, óculos escuros para esconder os olhos tristes. Gostava dessa individualidade, desse silêncio emocional, porque assim poderia refetir sobre si mesma, sem interferências. Fones no ouvido, o suave som de Nick Drake embalava as memórias e os pensamentos; nem reparou que um estranho havia se sentado ao seu lado, procurando uma oportunidade para iniciar uma conversa. Talvez falasse algo sobre o clima ou sobre a beleza da paisagem que podia ser contemplada pela janela. Mas aquele momento não era propício. Apesar de gostar das pessoas, de conversas despretenciosas, de novas perspectivas e novas vozes, naquele momento estava bem consigo mesma, e assim deveria ser. Precisava de espaço, e tinha encontrado o seu em um ônibus velho, numa estrada até então desconhecida, sentada na poltrona, a olhar a vista. Enxergava muito além do que estava diante dos olhos; a sensibilidade estava aflorada e a mente, aberta. O destino? Não importava. O caminho era muito mais importante.

Viu uma árvore sem vida; pensou na relação que acabara de deixar pra trás ao entrar naquele ônibus. Como a árvore, já estava seca, oca. As flores coloridas e perfumadas, os frutos suculentos e as folhas verdes não existiam mais. Já não absorvia nutrientes do solo, já não realizava suas funções vitais. Decretou que aquele ali seria a sepultura de seu falecido amor, junto da velha árvore de troncos podres.

Do lado de fora, as plantas, as flores, a poeira ia ficando pra trás, como a árvore morta. Imaginou as sementes que, fatalmente, cairiam no asfalto. Nunca cresceriam, nunca chegariam a ser árvore, nunca gerariam frutos ou flores. Estavam fadadas ao fracasso. Outras cairiam em solo impróprio, infértil. Poderiam ousar algum crescimento, mas não duraria muito. Era assim que ela enxergava sua nova paixão, a que estava nascendo: o sentimento servira para despertá-la de sua cegueira emocional que a impossibilitava de ver que seu relacionamento já havia acabado (estava morto!), mas não poderia florescer, não podia virar árvore. Estava com os dias contados porque lhe faltava os ingredientes básicos de sobrevivência de um amor, ou talvez não fosse a estação do ano mais adequada. Inverno, talvez. Mas não primavera.

 Já tinha ouvido muitas vezes que era a pessoa certa na hora errada; já havia dito isso algumas vezes. Mas, naquele momento, sentada na poltrona, suspirando, com os olhos tristes e a boca seca, tentou acreditar que realmente há um propósito para tudo, que nada acontece por acaso, que não existe hora errada, que existe uma vontade divina, que há coisas demais entre o céu e a terra, que um dia entenderia tudo aquilo, e todas as coisas do mundo que amenizam a dor de uma vontade reprimida, de um desejo não realizado, de uma paixão não vivida. "Talvez não era para ser", disse baixinho enquando, em seu íntimo, lembrava-se de um conto de Caio. Desejou ser, pelo menos, uma avenca ou uma samambaia. Quem sabe uma roseira....

3 comentários:

  1. Entre a dor e o prazer de ficar consigo mesma... O que descobrimos em nós mesmos quando ousamos pensar. Gostei do contexto e do modo como sua “parábola” abraçou Caio Fernando Abreu...
    Ah, antes que eu esqueça... Eu também quero ir para o Chile!!!! (ad infinitum)

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  2. Faltou um maldito ponto de interrogação depois do pensar...

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    1. Obrigada pelo comentário, Peterson. Fico feliz quando gosta dos meus textos.
      Abraço.

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